Rádio Alice através do espelho

Rádio Alice Através do Espelho.

Gilles Deleuze. Política e Poética Estóicas na Teoria do Rádio.[1]

Mauro Sá Rego Costa[2]

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ –

Rádio Alice transmite: musica, noticias, jardins floridos, conversa fiada,  invenções, receitas, horóscopos, filtros mágicos, amores, boletins de guerra, fotografias, mensagens, massagens, mentiras… (uma chamada da Rádio Alice)

Rádio Alice é uma experiência paradigmática de comunicação no contexto de um  modelo sócio-existencial-político-econômico que se materializava como projeto  nos anos 70 na Itália. Bologna em 74-77, tempo de gestação e vida de Alice, pode ser comparada à Paris de 68: um imenso laboratório ético-político construindo as bases para um mundo que virá. Sua gestação foi também movida pela publicação do primeiro dos grandes tratados políticos desse mundo que virá: Lógica do Sentido[3], de Gilles Deleuze, um livro sobre Alice.

A primeira ruptura está na concepção de Alice de contra-informação – “contra-rádio”-  centrada na enunciação e não no enunciado. Não se trata só do conteúdo da informação a ser contrariado. O que promove o Capital na mídia em geral não é, principalmente, o explícito nas palavras das notícias, comentários, letras de música, publicidade, mas a arquitetura do “meio”, inseparável de seus recursos retóricos e poéticos. Talvez a publicidade seja o modelo mais evidente. Os objetivos de uma boa peça publicitária não são claramente explicitados. Publicidade é poesia e sedução, é fazer a corte. O Capital nunca fala de si, de seus propósitos e funcionamento, com clareza – já nos ensinava Marx – ou seria rejeitado de cara. O Capital é um sedutor. Assim, a crítica ao Capital, com seu ar de arrancar os véus, de  “eis a verdade”, é sempre ineficaz. Dessa maneira se organiza, a operação comunicativa e política (toda comunicação é política, e vice-versa) de Alice.

Em Lógica do Sentido encontramos os princípios e o método desse projeto de comunicação e política “através do espelho”. Lógica do Sentido é um livro sobre organização e desorganização,  aparecimento e desfazimento do sentido; sobre os poderes da  presença e  da ausência do sentido. É um texto político estóico (como os de Lewis Carroll) sobre os potenciais e fluxos do sentido e do não-sentido e de como os dois se co-pertencem. Um livro para o futuro. Só um grupo como o da revista A/traverso, os maodadaístas, e outros ativistas do nonsense organizados em torno de Alice poderiam percebe-lo tão rápido e toma-lo como cartilha de guerrilha midiática.

Talvez a primeira questão, apontada por Deleuze, e que deve subverter e tornar ininteligível o projeto revolucionário de Alice para o conjunto da esquerda italiana da época, seja sua concepção do tempo.  O tempo estóico, que Deleuze rouba do magnífico estudo de Victor Goldsmith  e do artigo de Émile Brehier[4],  contraria o tempo hegeliano que Marx utiliza. Não há seqüência entre passado, presente e futuro e portanto sifu a dialética da História. O presente é eterno e material, presente contínuo, corpóreo,  enquanto passado e futuro são incorpóreos: o passado como memória e o futuro como expectativa, não têm corpo. Um materialismo do tempo. O tempo não tem matéria. O presente é feito de causas, todas as causas são materiais, já os efeitos se fazem apenas na superfície dos corpos – não há relação entre causa e efeito. Não-linearidade do tempo.

Ora, esta concepção do tempo cai como uma luva na concepção de mídia eletrônica, que McLuhan formula melhor  que a Escola de Frankfurt (com a exceção de Benjamin[5]). O caráter marcante da mídia eletrônica – telegrafo, telefone, rádio, TV, telemática – é o tempo imediato, da comunicação sem intervalo, o presente contínuo. Esse curto-circuito do tempo cronológico, do tempo espacializado, “atualiza” a concepção estóica não-linear do tempo. Esta é a revolução, percebe,  claramente, Alice.

É neste sentido que “o meio é a mensagem (o meio é a massagem)”: aspectos técnicos da enunciação tornam-se determinantes sobre o enunciado. Como Alice se apropria deste movimento?  Maria Antonietta Macciochi  acompanhou de perto a jornada da Rádio Alice, coincidente com sua própria expulsão do Partido Comunista Italiano, contada com elegância e humor em Aprés Marx, Avril. Um dos episódios, que, segundo ela, prepara o clímax do fechamento da rádio em março de 1977, foi a transmissão ao vivo da passeata estudantil-operária para perturbar a presença de G. Lamma, presidente da CGT[6], em Bologna.

Principal palavra de ordem: “i Lama sono al  Tibet” (os lamas estão no Tibet). Os repórteres maodadaístas da Rádio Alice se espalham ao longo de todo o percurso da passeata. Fazem a cobertura, como sempre, fantasiados: um pirata, árabes, arlequins, índios americanos, fadas e bruxas. Entram em todos os lugares por onde a passeata passa, passou e passará, e entrevistam quem encontram. As pessoas na rua, dentro e fora da passeata.  Uma hora entram num bar, onde homens bebem cerveja, e nem sabem da passeata. “O que você acha da presença do Lamma em Bologna?” “Que lama, cumpade, bebe uma… esquece…” Corta para um estudante baleado pela polícia na linha de frente da passeata. “Uma declaração para Rádio Alice: como você se sente baleado pela polícia comunista da prefeitura de Bologna?”  “AAAH! AAAAAAH! AAAAAAAAAH!!!”.  Ao vivo.

Outra história, que me contou Franco Berardi, numa entrevista para a Rádio Kaxinawá, em janeiro de 2002. O grupo maodadaista passa um trote no Presidente do Conselho, Giulio Andreotti, ao vivo, no ar. Telefona um dizendo ser o senador Umberto Agnelli (dono e presidente da Fiat Automóveis). Andreotti atende em quatro segundos. O suposto Agnelli passa-lhe um sermão: “Como você pensa que a gente pode trabalhar dessa maneira… greves selvagens, manifestações… não há um dia de calma por aqui… quero a polícia, me manda a polícia!!!”.  Andreotti responde no mesmo tom: “Você está pensando que a nossa situação é diferente, em Roma? Aqui, da minha janela, no Ministério… não há um dia sem bandalheira, estudantes, operários, um horror…!!!”  A conversa se prolonga por cinco minutos, com observações cada vez mais absurdas do suposto Agnelli, até Andreotti perceber que está sendo enganado…

Nos dois casos, crítica política “através do espelho”. No lugar do comentário de conteúdo e de argumentação racional contra os absurdos do Poder,  a anedota, como na pedagogia Zen, igualmente irracional e dirigido ao Inconsciente, uma ação de comunicação, ou comunicação, no lugar da interpretação. Como propunha Guattari, a teoria do Inconsciente é um instrumento no movimento de massas[7].

São estas falhas, rachaduras, brechas, dobras, que a comunicação política anti-isso anti-aquilo não conhecia e cuja base teórica é inovadora ainda hoje – trabalhar com o nonsense, com o paradoxo, com os fluxos e intensidades, e não com a lógica argumentativa de líder sindical, parlamentar, partidário, que é ainda o recurso corrente (aparente) da política. Trata-se de atuar sobre a mídia como mídia, apropriando-se de seus meios e virando-os contra si, como já propunham (e faziam), igualmente, Guy Debord[8] e os Situacionistas antes e durante o 68 parisiense. A velha política liberal sempre fingiu essa  cara “racional”, argumentativa; mas a mídia não, a mídia é espetáculo. E, evidentemente, hoje, como já nos anos 60 e 70, a política é espetáculo (alguém apoiaria George W. Bush  por seus talentos de argumentação?). Alice assume isso em todos os seus níveis, toda sua máquina de enunciação. A questão é assumir o paradoxo como principal arma política, o que implica em renunciar às categorias e às classificações  ou às classes

As informações falsas produzem eventos verdadeiros.

A contra-informação denuncia o falso que o poder produz. Assim  o espelho da linguagem do poder reflete a realidade de maneira deformada. A contra-informação restabelece  a verdade, mas de maneira puramente reflexiva. Como faz um espelho. Rádio Alice é a linguagem através do espelho.[9]

Alguns princípios de método apresentados por Alessandro Marucci:

  1. A guerrilha informativa praticada pela Radio Alice (…) busca anular a divisão rígida entre ouvintes e redatores para chegar a produzir coletivamente a informação. (…).   O elemento fundamental desta estratégia é que não devem existir notícias e informações produzidas fora do circuito comunicativo, coisa que fazem as agências de notícias, entesourando a notícia para revende-la depois. Haver declarado propriedade social tanto a informação como a música (liberdade de acesso) criaram as bases para superar a concepção da propriedade privada do trabalho intelectual.[10]
  1. Ao comentar a influência de Lógica do Sentido na concepção da estratégia comunicativa da Rádio Alice, Berardi aponta também que Deleuze, “decifra os paradoxos atravessados pela heroína de Carroll como metáforas dos mecanismos de perda da identidade”.

Jogar contra a paranóia identitária será uma das características do coletivo da rádio (…) Como será fortíssimo o interesse pela operatividade textual de Maiakovski e pela reabilitação da linguagem do corpo operada por Artaud.[11]

  1. Ao falar da linguagem da rádio, Berardi enfatiza que sua qualidade “impura, ou suja” decorre de ser linguagem “falada”.

As vozes na freqüência de 100,6 megahertz transmitiam a possibilidade de liberar a expressão lingüística da obrigação do sentido. Vozes sem imagem, vozes que se intensificam no barulho, ruídos desconhecidos: um dia, com amplificadores especiais foi transmitido o ruído do mato crescendo. Experimento curioso, inocente como a pequena Alice[12].

  1. A herança de Alice, segundo Berardi:

um fluxo contínuo de produção teórica, mesmo diante dos microfones, trazendo temas que apontavam já para as mutações globais: o trabalho como produção do saber, a linguagem e seu controle,  um conceito de sujeito como ponto de cruzamento de energias coletivas.

  1. E o mais importante, a pesquisa de mídia, pesquisa dos recursos próprios do “veículo”  rádio, associada ao resgate do grito de Tristan Tzara, de sessenta anos atrás: “Abaixo a Arte. Abaixo a Vida Cotidiana. Abaixo a separação entre a arte e a vida cotidiana!!!”  Segundo Berardi, “assim se formou uma inteligência criativa e alegre, precursora da atual cultura da rede”.[13]

A luta contra a “paranóia identitária” e a construção do conceito de subjetividade como “ponto de cruzamento de energias coletivas”, eis dois temas centrais em Deleuze e Guattari, que continuam perturbadores. Formulam um novo regime subjetivo que já vinha se anunciando na literatura desde os anos 20, tem sua face revolucionária com os movimentos de juventude dos anos 60 e 70, e ganha consistência no novo regime do trabalho imaterial, do trabalho cognitivo em nossa era pós-fordista ou pós-industrial.  Esse “sujeito sem caráter” que angustiava na literatura de Musil (O Homem sem Qualidades), de Kafka ou Becket,  aparece com alegria libertária no Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter, de Mário de Andrade ou no Dharma Bums de Jack Kerouac.

Esse é também o “sujeito” vazio do Budismo Zen, ou dos estóicos em busca de Deus como a afirmação do Destino – viver o seu Destino com o máximo de positividade. Sempre dizer Sim ao Destino. Assim falam os estóicos, ou os personagens de Kieslowski, em “Bleu”, “Blanc”, “Rouge”, obra prima do cinema estóico contemporâneo.[14]. Assim fala Nietszche. Deleuze desenvolverá sua concepção de subjetividade (e depois, em parceria com Felix Guattari) como multiplicidade, experiência do tempo bergsoniano de muitas camadas; múltiplos “eus”, como em Fernando Pessoa.

Esta concepção tem sua primeira versão em Lógica do Sentido, começando na Segunda Série de Paradoxos: Dos Efeitos de Superfície, em que apresenta a temporalidade/corpo e subjetividade estóicas. Depois, na Décima Segunda Série: Sobre o Paradoxo, analisa e destrói a construção do “bom  senso” e do “senso comum”, ambos necessitantes (e co-fundantes) da forma de um eu fixo, de uma identidade.

É contudo aí que se opera a doação de sentido, nesta região que precede todo bom senso e senso comum. Aí a linguagem atinge sua mais alta potência com a paixão do paradoxo. Para além do bom senso, as parelhas de Lewis Carroll representam os dois sentidos, ao mesmo tempo, do devir-louco. Primeiro, em Alice, o chapeleiro e a lebre de março: cada um habita em uma direção, mas as duas direções são inseparáveis, cada uma se subdivide na outra, tanto que as encontramos, ambas, em cada uma. É preciso ser dois para ser louco, somos sempre loucos em dupla, ambos se tornam loucos no dia em que ‘massacraram o tempo’, isto é, destruiram a medida, suprimiram as paradas e os repousos, que referem a qualidade a alguma coisa de fixo[15].

A apresentação continua na Décima Quinta Série: Das Singularidades, quando mostra  a concepção de individuação (física e biológica, como psicológica e social) de um de seus aliados teóricos mais ricos, o biofísico e filósofo Gilbert Simondon, com  seus conceitos de metaestabilidade (nem estável, nem instável, nem caos nem cosmos, caosmos); e de singularidade, esta associada à obra do matemático Albert Lautman, sobre a teoria das equações diferenciais[16].

As singularidades são os verdadeiros acontecimentos transcendentais: o que Ferlinghetti chama de “a quarta pessoa do singular”. Longe de serem individuais ou pessoais, as singularidades presidem à gênese dos indivíduos e das pessoas: elas se repartem em um “potencial”que não comporta por si mesmo nem Ego (Moi) individual, nem Eu (Je) pessoal, mas que os produz, atualizando-se, efetuando-se, as figuras desta atualização não se parecendo em nada ao potencial efetuado[17].

Singularidades nômades que não são mais aprisionadas na individualidade fixa do Ser infinito (a famosa imutabilidade de Deus) nem nos limites sedentários do sujeito finito (os famosos limites do conhecimento). Alguma coisa que não é individual nem pessoal e, no entanto, que é singular, não abismo indiferenciado, mas saltando de uma singularidade para outra, sempre emitindo um lance de dado que faz parte de um mesmo lançar sempre fragmentado e reformado em cada lance[18].

A questão continua na Décima Nona Série: Do Humor, em que a vinculação selvagem – e precisa – entre o pensamento estóico e o budismo Zen é formulada:

Esta aventura do humor, esta dupla destituição da altura e da profundidade, em proveito da superfície, é primeiro a aventura do sábio estóico. Mas, mais tarde e em outro contexto, é também aquela do Zen – contra as profundidades bramânicas e as altitudes búdicas. Os célebres problemas-provas, as perguntas-respostas, os koan, demonstram o absurdo das significações, mostram o não-senso das designações[19].

E, finalmente, na Vigésima Primeira Série: Do Acontecimento, e na Vigésima Quarta Série: Da Comunicação dos Acontecimentos. A noção de acontecimento é central, no pensamento dessubjetivado em que se anuncia o além do homem nietszcheano que Deleuze cerca e a Rádio Alice veicula.

A divergência  das séries afirmadas forma um ”caosmos”  e não mais um mundo; o ponto aleatório que os percorre forma um contra-eu e não mais um eu;  a disjunção posta como síntese troca seu princípio teológico contra um princípio diabólico. Este centro descentrado é que traça entre as séries e para todas as disjunções a impiedosa linha reta do Aion, isto é, a distância em que se alinham os despojos do eu, do mundo e de Deus: grande Cañon do mundo, fenda do eu, desmembramento divino. Assim, há sobre a linha  reta um eterno retorno como o mais terrível labirinto de que falava Borges, muito diferente do retorno circular ou monocentrado de Cronos: eterno retorno que não é mais o dos indivíduos, das pessoas e dos mundos, mas o dos acontecimentos puros que o instante deslocado sobre a linha não cessa de dividir em já passados e ainda por vir[20].

Eu comentaria então o artigo de Lewis Carroll – The Dynamics of a Parti-cle – (citado por Deleuze[21]) publicado em 1865: a primeira crítica pretermicropolítica  à política partidária, uma obra de humor e sabor surpreendentes tratando de questões  como a da representação e a das divisões, cismas e disparates  (como se vota, como se calculam vantagens, ganhos, salsichas e pizzas) da prática parlamentar. Mas remeto o leitor ao texto – in The Complete Works of Lewis Carroll, Penguin Books, 1982, 1016-1026, e prefiro terminar esta comunicação traçando as correlações entre a teoria deleuzeana da dessubjetivação e o rádio como medium.

Como ficou claro, o acontecimento se dá não no tempo cronológico mas no tempo estóico sem matéria, Aion, puro fluxo futuro-passado, sempre esquivando o presente e/ou no tempo do eterno retorno – sobre a linha reta, o mais terrível labirinto – tempo não mais dos indivíduos, das pessoas, dos mundos. Quem ouve rádio é a quarta pessoa do singular.

A referência é Marshall McLuhan,  escorraçado teórico da mídia. Lembrar que McLuhan inaugurou, e levou para o uso corrente, as expressões medium – um meio de comunicação, i.e, o rádio, a televisão, o computador, a fala, a linguagem escrita, o dinheiro, a luz elétrica, o automóvel, o telefone, a roupa, o penteado, a escrita tipográfica, etc – e o plural ou genérico media, que, por aqui virou mídia[22].  Todos esqueceram os mediums, talvez com medo dos feiticeiros, das mães-de-santo.

McLuhan analisa comparativamente os diversos media, pela arquitetura fenomenológica da percepção e a arquitetura social de seu uso. Suas fontes não confessadas: a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty, as constelações de Walter Benjamim.  Assim, a leitura do livro impresso estimulou determinado uso da “visão separada” que “cria” a pintura em perspectiva, o palco italiano, a fotografia, um hábito linear e analítico de pensar, Descartes, a ciência clássica.  A ditadura desta “visão separada”  criou também os analfabetos, modificou a arquitetura da memória, matou o poeta improvisador – de Homero ao cantador de cordel e toda a música africana -.

Há uma diferença de natureza entre a fala e o escrito – a fala com seu tempo, seu vai-vem, seu balanço, sua “levada”,  ritmos, crescendos, decrescendos, sua música, emoção, fica seca, aplainada, fria, homogênea e sem tempo, na escrita. Os velhos africanos culturalmente ágrafos não reconhecem seus filhos que foram a escola[23]. Grupos aimará e quechua, no Perú e na Bolívia lutam pelo “direito ao analfabetismo”, para que sua cultura e vida não desapareçam. A televisão, como a escrita, são frias. O rádio, como a fala,  quentes.

McLuhan, ao apresentar o rádio – “O Tambor Tribal” – em seu capítulo de Understanding Media, cita a resposta de uma ouvinte a uma pesquisa sobre o meio: “Quando ouço rádio, parece que vivo dentro dele. Eu me abandono mais facilmente ao ouvir rádio do que ao ler um livro”. A fenomenologia de McLuhan/Merleau-Ponty mostra como o olho é pessoal, o visto é escolhido a partir da posição e direção do teu olhar. Vendo, você está sempre “diante de”.  Enquanto o ouvido é inclusivo, você ouve dentro; é mais difícil fazer a separação de dentro/fora, localizar no espaço de onde vem os sons ouvidos. A visão tem no máximo 180º, enquanto você ouve em 360º.

As profundidades subliminares do rádio estão carregadas daqueles ecos ressoantes das trombetas tribais e dos tambores antigos. Isto é inerente à própria natureza deste meio, com seu poder de transformar a psique e a sociedade numa única câmara de eco.[24]

Mais do que o telégrafo e o telefone, o rádio é uma extensão do sistema nervoso central, só igualada pela própria fala humana. Não é digno de meditação que o radio sintonize tão bem com aquela primitiva extensão de nosso sistema nervoso central, aquele meio de massas aborígene – que é a língua vernácula? O cruzamento destas duas e poderosas tecnologias humanas não poderia deixar de fornecer algumas formas extraordinariamente novas à experiência humana.[25]

O rádio traz de volta nossa África interna. Rádio Alice e todas as suas herdeiras livres e comunitárias que estão no ar, hoje,  no Brasil, como na Itália, nos Estados Unidos, no México, na Argentina, trazem a África de volta na voz do rap, no hip hop, na reinvenção da política que aprendemos com Deleuze, Bifo, McLuhan e Lewis Carroll. Quem ouve rádio é a Quarta Pessoa do Singular.


[1] Trabalho apresentado ao NP 06 – Rádio e Mídia Sonora, do IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom – XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.

[2] Professor Adjunto e atual Diretor da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense / UERJ. Procientista / UERJ. Coordenador da Oficina Híbridos  do Labore – Laboratório de Estudos Contemporâneos -; Vice-presidente da Associação Comunitária de Comunicação, Educação e Cidadania de Vila S. Luís – Rádio Kaxinawá.  maurosa@uerj.br

[3] Deleuze, Gilles. Lógica do Sentido. Trad de Luis Roberto Salinas Fortes, São Paulo, Perspectiva, 1974.

[4] GOLDSCHMIDT, Victor.  Le système stoicien et l’idée de temps. Paris, Vrin, 1953; BRÉHIER, Emile. La theorie des incorporels dans l’ancien stoïcisme. Vrin, 1928, 11-13.

[5] “(…) Benjamin desiste pouco a pouco da forma autobiográfica clássica que segue o escoamento do tempo vivido pelo autor (…) para concentrar-se na construção de uma série finita de imagens exemplares, mônadas (para usarmos um dos seus conceitos preferidos) privilegiadas que retêm a extensão do tempo na intensidade de uma vibração, de um relâmpago, do Kayros.” Gagnebin, Jeanne Marie. História e Narração em W. Benjamin. Perspectiva, São Paulo, 1999, 80.

[6] CGIL – Confederação Geral Italiana dos Trabalhadores, ligada ao Partido Comunista Italiano.

[7] Guattari, F. e Rolnik. S.  Micropolítica. Cartografias do Desejo. Petrópolis, Vozes, 1986.

[8] Guy Debord. A Sociedade do Espetáculo. Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo. Contraponto, Rio de Janeiro, 2002.

[9] Franco Berardi. Informazioni false producono eventi veri. Radio Alice, fevereiro 1976.

[10]KLEMENS GRUBER: INTERVISTA di Alessandro Marucci (Il Manifesto/Alias 9 marzo 2002)

[11] Idem, Marucci / Klemens Gruber.

[12] Ibidem, Marucci / Klemens Gruber

[13] Idem, ibidem, Marucci / Klemens Gruber

[14] V. Andréa França. Cinema em Azul, Branco, Vermelho. A trilogia de Kieslowski, Sete Letras, Rio de Janeiro, 1996.

[15] Deleuze, op. Cit. 81-82.

[16] Deleuze, op. cit., 106-109. V. Simondon, Gilbert.  L’individu et sa genèse physico-biologique. P.U.F., Paris, 1964 [ a introduçao deste texto foi traduzida em Pelbart, Peter .P. e da Costa, N. O Reencantamento do Concreto, Hucitec, São Paulo, 2003.]  e Lautman, Albert. Le Probleme du Temps, Hermann, Paris, 1946.

[17] Deleuze, op. cit. , 105.

[18] Deleuze, op.cit., 110.

[19] Deleuze, op. cit., 139.

[20] Deleuze, op.cit. 182.

[21] Deleuze, op. cit., 12 – Segunda Série de Paradoxos: Dos Efeitos de Superfície.

[22] Marshall McLuhan. Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. São Paulo, Cultrix, 1970.

[23] Carothers, J.C. “Culture, Psychiatry and the Written Word”, Psychiatry, nov., 1959.

[24] McLuhan, op.cit, 1970, 336-337.

[25] Idem, 339-340.

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